METODOLOGIA CIENTÍFICA
Como fazer uma revisão integrativa em Enfermagem: passo a passo
A revisão integrativa é uma estratégia de síntese do conhecimento muito utilizada na área da saúde. Quando bem estruturada, permite reunir e analisar estudos sobre determinado problema, identificar convergências, divergências e lacunas e apresentar uma síntese organizada das evidências disponíveis.
Mas existe uma diferença importante entre simplesmente reunir artigos e desenvolver uma revisão com rigor metodológico. O processo precisa ser planejado, documentado e apresentado de maneira transparente.
1. Comece pela pergunta de pesquisa
Um bom trabalho começa com uma pergunta clara e delimitada.
“Assistência de enfermagem”, por exemplo, é um tema amplo. Uma pergunta como “Quais intervenções de enfermagem têm sido descritas para promoção do aleitamento materno na Atenção Primária à Saúde?” estabelece melhor o fenômeno que será investigado.
A estrutura utilizada para formular a pergunta deve ser escolhida de acordo com o tipo de problema e o objetivo da revisão.
2. Defina os critérios de elegibilidade
Antes da busca, determine quais estudos poderão ser incluídos ou excluídos.
Podem ser considerados aspectos como período de publicação, idiomas, população, contexto, tipos de estudos e relação com a pergunta de pesquisa.
Esses critérios não devem ser modificados simplesmente para produzir resultados mais convenientes. Mudanças justificadas no planejamento devem ser registradas e explicadas.
3. Planeje a estratégia de busca
A busca científica deve ser reproduzível.
Na área da saúde, podem ser utilizadas fontes como PubMed/MEDLINE, LILACS e BDENF, entre outras, conforme o objetivo da pesquisa.
Descritores controlados, consultados no DeCS e no MeSH, e termos livres podem ser combinados com operadores booleanos, como AND e OR. A estratégia deve ser adaptada à sintaxe de cada fonte.
Mais importante do que pesquisar muitos termos é conseguir explicar claramente onde, quando e como a busca foi realizada. Registre as estratégias completas e as datas das buscas.
4. Organize a seleção dos estudos
Registre o número de referências encontradas e documente as diferentes etapas de seleção.
Isso pode envolver identificação de duplicatas, leitura de títulos e resumos, avaliação dos textos completos e definição da amostra final. Registre também os motivos de exclusão na etapa de texto completo.
A transparência dessa etapa permite que o leitor compreenda como os estudos incluídos chegaram à revisão.
5. Extraia os dados de forma padronizada
Depois da seleção, crie uma estrutura para extrair as informações relevantes.
Uma matriz pode incluir autor e ano, objetivo, desenho metodológico, população ou amostra, contexto, principais resultados e informações diretamente relacionadas à pergunta da revisão.
Essa organização facilita a comparação entre os estudos.
6. Avalie criticamente os estudos
Além de extrair resultados, avalie a qualidade metodológica dos estudos com critérios ou instrumentos apropriados aos desenhos incluídos. Descreva como essa avaliação foi realizada e como influenciou a interpretação dos achados.
Limitações dos estudos precisam aparecer na síntese: reunir vários trabalhos não elimina os problemas de cada um. Essa avaliação faz parte do referencial de revisão integrativa de Whittemore e Knafl (2005).
7. Vá além do resumo dos artigos
Um erro frequente é transformar os resultados em uma sequência de resumos: “O autor A encontrou isso. O autor B encontrou aquilo.”
A síntese precisa avançar. Quais resultados convergem? Quais divergem? Existem padrões entre os estudos? Que explicações são apresentadas? Quais aspectos ainda permanecem pouco investigados?
É nessa análise que a revisão ganha profundidade. Considere as diferenças de contexto e método ao comparar os resultados.
8. Relate o processo com transparência
O leitor precisa conseguir compreender as decisões metodológicas tomadas durante a revisão.
Diretrizes de relato podem auxiliar nessa transparência. O PRISMA 2020 foi desenvolvido principalmente para o relato de revisões sistemáticas que avaliam efeitos de intervenções e apresenta recomendações para descrever métodos e resultados, incluindo a seleção dos estudos.
Isso não significa que toda revisão integrativa deva ser automaticamente denominada “revisão sistemática” por utilizar elementos ou um fluxograma inspirado nessas recomendações. Escolha as orientações de relato compatíveis com o desenho adotado e explique seu uso.
Revisão integrativa exige método
Uma revisão consistente não nasce da quantidade de artigos encontrados, mas da coerência entre pergunta de pesquisa, estratégia de busca, critérios de seleção, avaliação crítica, análise e apresentação dos resultados.
Registrar essas decisões desde o início também facilita a escrita posterior da metodologia e dos resultados.
Referências e fontes
- Whittemore, R.; Knafl, K. The integrative review: updated methodology. Journal of Advanced Nursing, 52(5), 546–553, 2005.
- PRISMA. PRISMA 2020 statement: diretriz, checklist e fluxogramas oficiais.
- BIREME/OPAS/OMS. DeCS — Descritores em Ciências da Saúde.
- National Library of Medicine. Medical Subject Headings (MeSH).